Se você gerencia uma frota, provavelmente já ouviu a frase: "Sempre dirigi assim e nunca deu problema". Esse é o clássico argumento do motorista que carrega o que chamamos de vícios de condução. Aceitar esses hábitos como "normais" é, na minha experiência, o primeiro passo para comprometer os resultados da sua operação e, pior, a segurança da sua equipe.
Recentemente, na Live 318 do canal, conversei com o Wagner Lima, um gestor experiente que lida diariamente com esses desafios. O papo foi muito além da teoria; falamos sobre a realidade do dia a dia, aquela batalha de "enxugar gelo" que nós conhecemos bem. Estamos em 2026, a tecnologia avançou muito, mas o fator humano ainda é a variável mais complexa da equação.
Neste artigo, quero compartilhar os principais insights dessa conversa sobre como identificar esses vícios, entender os malefícios reais (além do óbvio gasto de combustível) e, principalmente, como trabalhar para resolver isso sem promessas mágicas, mas com gestão de verdade.
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A Raiz do Problema: Cultura ou Falta de Treinamento?
Durante a live, fizemos uma enquete com mais de 150 gestores perguntando: "Na sua opinião, por que o motorista mantém vícios de condução?". O resultado foi revelador, mas não surpreendente para quem está no campo de batalha:
- 51% (A maioria esmagadora): Vício Cultural. O famoso "sempre foi assim".
- Segunda posição: Falta de treinamento técnico.
- 15% (Os sinceros): Falta de acompanhamento do gestor.
Isso nos mostra que o buraco é mais embaixo. Não se trata apenas de o motorista não saber operar o caminhão ou o carro leve; trata-se de uma resistência comportamental enraizada. O Wagner comentou algo interessante: muitas vezes, o motorista novato, que acabou de entrar na empresa, aprende o vício com o colega mais antigo. É um ciclo que se perpetua se não houver intervenção.
O "Jeitinho" que Custa Caro
Quando falamos de vícios, não estamos falando apenas de excesso de velocidade. Estamos falando de pequenas ações repetidas milhares de vezes que destroem o patrimônio da empresa. Alguns exemplos práticos que discutimos:
- Pé descansando na embreagem: Parece inofensivo, mas reduz drasticamente a vida útil do conjunto, causando quebras prematuras de rolamentos e discos.
- Mão na manopla do câmbio: Além de danificar os seletores da caixa de marcha com o tempo, impede que o motorista tenha as duas mãos no volante para uma reação rápida.
- Frenagem brusca e "pneu quadrado": O Wagner citou casos de pneus que chegam "quadrados" na oficina devido a travamentos de roda, ou cargas tombadas por excesso de confiança em curvas.
- Sistemas de ar: Motoristas que não drenam os balões de ar (bujões) porque acham que a válvula automática resolve tudo, o que pode levar água para o sistema de freio.
Identificação: O Primeiro Passo para a Mudança
Você não consegue corrigir o que não vê. E, na gestão de frotas, você não consegue corrigir quem você não identifica. Um ponto crucial que levantamos é: nenhum quilômetro rodado na sua frota pode ficar sem nome.
Se você tem um sistema de telemetria ou rastreamento, como o Contele Fleet, e vê uma frenagem brusca ou um excesso de velocidade, mas não sabe quem estava dirigindo, esse dado é praticamente inútil para a gestão comportamental.
O Wagner utiliza muito o Checklist como ferramenta de vinculação. Se o motorista fez o checklist de saída, ele assumiu a responsabilidade por aquele veículo. A partir daí, qualquer evento de telemetria ou multa tem "CPF". Sem essa identificação clara, o motorista "rebelde" se esconde no anonimato da frota compartilhada.
Lidando com os "Rebeldes"
Toda empresa tem aquele motorista que é mais resistente à mudança. O Wagner usou uma analogia forte: a "laranja podre". Se você identifica um comportamento nocivo e não atua, esse comportamento contamina os outros, especialmente os mais novos.
A estratégia aqui não é apenas punir, mas confrontar com dados. Quando o motorista diz "eu sei o que estou fazendo", mas os dados mostram um consumo excessivo de freio ou combustível comparado à média da equipe, o argumento dele cai por terra. É necessário trazer esse profissional para a conversa, mostrar os números e, se não houver mudança, tomar decisões mais difíceis. Proteger a cultura da segurança é prioridade.
A Matemática da Distração (O Vício do Celular)
Um dos vícios mais perigosos e comuns hoje é o uso do celular. E não é só mandar mensagem; é usar o celular para "se distrair" do tédio da estrada, como o Wagner relatou ter ouvido de um motorista.
Para combater isso, é preciso ir além do "é proibido". Precisamos explicar o porquê. O Wagner trouxe um cálculo simples que costuma chocar os motoristas em treinamentos:
- Um motorista leva, em média, 4 segundos para olhar o celular, desbloquear e olhar de volta para a estrada.
- A uma velocidade de 80 km/h, o veículo percorre cerca de 22 metros por segundo.
- Em 4 segundos, esse veículo percorreu quase 90 metros às cegas.
Quando você coloca dessa forma — "Você teria coragem de dirigir um campo de futebol inteiro de olhos fechados?" — a ficha começa a cair. Esse vício não afeta só a segurança; ele destroi a média de combustível. Quem dirige distraído não antecipa paradas, freia em cima da hora e perde a inércia do veículo, que é o segredo da condução econômica.
Treinamento: O Óbvio Precisa ser Dito
Muitos gestores acham que treinamento é perda de tempo ou que "eles já sabem disso". Mas a realidade mostra o contrário. O óbvio precisa ser dito e repetido.
Por exemplo, o uso correto do cinto de segurança. Ainda vemos motoristas passando o cinto por baixo do braço ou deixando-o frouxo. Em um acidente, isso pode ser fatal, quebrando costelas ou não segurando o corpo adequadamente. Treinamento não é só sala de aula; é levar o motorista para a oficina, mostrar uma peça quebrada por mau uso, mostrar o pneu quadrado, explicar como funciona o sistema de freio.
Na minha visão, o treinamento técnico deve ser constante. Não é um evento único, é um processo. É o que o Wagner chamou de "enxugar gelo": você limpa, seca, e logo precisa fazer de novo porque entram pessoas novas ou os vícios antigos tentam voltar. A diferença é que, com gestão, o volume de "água" diminui e o processo fica mais controlado.
Conclusão: Uma Batalha Contínua
Eliminar os vícios de condução não é uma tarefa que você conclui em um mês. É uma mudança cultural que exige persistência. Você precisa de:
- Dados: Para saber quem, quando e onde (Telemetria/Contele Fleet).
- Técnica: Para explicar o porquê das coisas (Treinamento).
- Coragem: Para confrontar os vícios culturais e os "rebeldes".
Se você não acompanhar, a culpa não é só do motorista que tem o vício, mas também do gestor que permitiu que aquilo se tornasse parte da cultura da empresa. Como vimos na enquete, 15% dos gestores assumiram que falta acompanhamento. Talvez esse número devesse ser maior.
Espero que este artigo ajude você a olhar para sua frota com olhos mais críticos e a começar a mudança hoje mesmo.
FAQ
1. O que são vícios de condução?
São hábitos adquiridos pelos motoristas que prejudicam o desempenho do veículo ou a segurança. Exemplos incluem descansar o pé na embreagem, dirigir com a mão no câmbio, frenagens bruscas constantes e excesso de confiança que leva a comportamentos de risco.
2. Como diferenciar um erro pontual de um vício?
A diferença está na frequência. Um erro pontual acontece por uma circunstância específica do trânsito. O vício é repetitivo e aparece nos relatórios de telemetria constantemente, independentemente da rota ou do dia.
3. A tecnologia sozinha resolve os vícios dos motoristas?
Não. A tecnologia (como o Contele Fleet) aponta o problema e identifica o responsável. A solução depende da ação do gestor em usar esses dados para treinar, dar feedback e, se necessário, aplicar medidas disciplinares.
4. Por que o "jeitinho" é tão perigoso na gestão de frotas?
Porque ele mascara ineficiências e riscos. O "jeitinho" geralmente ignora procedimentos de segurança ou manutenção preventiva em prol de uma suposta agilidade, que a longo prazo resulta em acidentes e custos elevados de manutenção corretiva.
Quer ter os dados necessários para identificar esses vícios e transformar a cultura da sua frota? Conheça o Contele Fleet e veja como podemos ajudar.
Assista ao Video Completo
Este artigo foi baseado no video do canal Julio Cesar | Frota Para Todos. Clique para assistir:
